terça-feira, 18 de julho de 2017

«LA CURIEUSE»

Pequeno veleiro de bandeira francesa (aparelhado ora como um 'ketch', ora como uma escuna), que deixou o seu nome ligado à exploração científica das ilhas (pré-antárcticas) Kerguelen. O veleiro «La Curieuse» apresentava 75 toneladas de arqueação bruta e media 20,75 metros de comprimento. Foi construído, em 1911, no estaleiro de Léon Lefèvre, de Boulogne-sur-Mer com desenho original do arquitecto naval G. Soé. Dispunha de motor auxiliar. Durante a segunda expedição ao arquipélago Kerguelen levada a cabo por Raymond Rallier du Baty, esta pequena embarcação navegou com uma equipagem de, apenas, 7 homens, incluindo o chefe de expedição. «La Curieuse» fez-se ao mar a 16 de Julho de 1912, para realizar uma viagem (patrocinada pelo Museu de História Natural e pelo Ministério da Educação Pública), que deveria durar 5 anos; e que serviria para completar os trabalhos executados aquando de um precedente cruzeiro às mesmas ilhas, feito com o suporte de um outro navio. Antes de atingir o seu objectivo (as Kerguelen), este veleiro escalou vários portos, nomeadamente o do Funchal. «La Curieuse» chegou ao seu destino final a 22 de Outubro de 1913, onde realizou um trabalho de grande interesse científico; mas interrompeu a sua actividade, quando  Rallier du Baty tomou conhecimento do estado de guerra entre o seu país, a França, e a Alemanha Imperial. Essa tomada de decisão foi feita em sintonia com os outros membros da expedição, pois alguns deles (incluindo o chefe) decidiram alistar-se nas forças armadas para combater o 'kaiser' e os seus exércitos. A embarcação em apreço ficou-se por Sidney, na Austrália, desconhecendo o escriba de serviço qual terá sido o seu destino.

«HIGHLAND HOPE»

Paquete de bandeira britânica, pertencente à frota da companhia Nelson Line; que foi fundada em 1880 com o primeiro intuito de explorar o negócio de transporte de carne congelada da Argentina para os mercados europeus. Construído nos estaleiros da firma Harland & Wolff de Belfast (Irlanda do Norte) em 1930, o «Highland Hope» era um navio que também transportava correio e passageiros. Neste último domínio, refira-se que tinha capacidade para receber a bordo mais de 700 pessoas, que eram, na sua quase generalidade, emigrantes com destino ao Brasil e à Argentina. A sua arqueação bruta era de 14 129 toneladas e o navio media 159 metros de comprimento por 21,20 metros de boca. A sua propulsão era assegurada por 2 máquinas diesel, desenvolvendo uma potência de 2 190 nhp, que lhe permitia avançar à velocidade de cruzeiro de 16 nós. O «Highland Hope» foi colocado numa linha que ligava Londres a Buenos Aires, com escalas nos portos de Boulogne-sur-Mer, Vigo, Lisboa (acessoriamente) e Rio de Janeiro. No dia 19 de Novembro de 1930, quando ainda não completara 1 ano de serviço, este paquete britânico (com 550 passageiros e tripulantes a bordo) foi despedaçar-se contra os Farilhões -perto de Peniche- devido ao nevoeiro e, ao que tudo indica, a um grosseiro erro de navegação. Alertados pelo tremendo estrondo provocado pelo encalhe, os penicheiros que por ali pescavam nas suas frágeis embarcações, dirijiram-se para o lugar do sinistro, logrando salvar todos os náufragos. Acto que seria, mais tarde, reconhecido e recompensado com diplomas e medalhas pelo governo de Sua Majestade. O navio, considerado irremediavelmente perdido, pelo armador e respectiva companhia de seguros, foi depois pilhado pelos pescadores locais, que dele sacaram objectos de pequena dimensão, que ainda hoje existem e são mostrados como troféus. Um empresa de salvados recuperaria, quando as condições do mar lhe permitiram o acesso à carcaça do malfadado «Highland Hope», metais não ferrosos e outros materiais com algum valor comercial. De modo que aquilo que hoje resta do navio (que já passou cerca de 90 anos no fundo do mar) é pouca coisa (um amontoado de chapas e ferros retorcidos), que apenas representa um espólio para os arqueólogos subaquáticos e para os curiosos da História Marítima. Curiosamente, o navio que foi mandado construir para substituir o navio aqui em apreço, foi, também ele, vítima de um destino infeliz. Com efeito, o «Highlant Patriot» foi afundado -no dia 1 de Outubro de 1940- pelo submarino alemão «U-38». Só que aqueles que nele viajavam não tiveram a mesma sorte dos que se encontravam a bordo do seu predecessor. 140 morreram...

segunda-feira, 17 de julho de 2017

«VENTUROSO»


Lugre português de 4 mastros e com casco de madeira, construído em 1919 num estaleiro de Vila do Conde pelo mestre carpinteiro Jeremias Martins Novais; que era membro de uma família de afamados construtores navais do norte do país, responsável pela realização de numerosos e excelentes navios à vela. O «Venturoso» pertenceu à Sociedade Comercial de Navegação, Lda., com sede no Porto. A rara informação existente sobre este navio, apenas refere que apresentava 413 toneladas de arqueação líquida (TAL) e que nunca usou motor auxiliar. São igualmente conhecidos os nomes dos seus dois capitães : José Cochim (que passou pelo navio em apreço entre 1919 e 1921) e José Ançã (que o terá governado entre 1922 e 1923). Este quase misterioso navio perdeu-se num também pouco documentado naufrágio, que ocorreu em pleno oceano Atlântico, quando o «Venturoso» navegava de Belém do Pará, para a Cidade Invicta. Nada se sabe sobre a existência de eventuais sobreviventes ao soçobro do navio. Mas depreende-se, pela data da morte do seu capitão, que este terá sido uma das vítimas do afundamento do lugre. A foto aqui anexada é de autor desconhecido. Foi apresentada (julgo que pela primeira vez) no excelente blogue «Navios à Vista», ao qual pedimos desde já a sua indulgência por esta bem intencionada usurpação e apresentamos melhores comprimentos. Mas também ela (a foto) é polémica, pois não há certezas de que, realmente, represente o «Venturoso».

sábado, 15 de julho de 2017

«P. R. HAZELTINE»


O veleiro «P. R. Hazeltine» (uma galera de 3 mastros com casco em madeira) foi construído em 1876 nos estaleiros Carter C. P. & Company, de Belfast, no estado norte-americano de Maine. O seu único armador foi a firma Ezekiel H. Herriman, da mesma cidade. Que perdeu este navio aquando da sua viagem inaugural, que começou Liverpool (Nova Iorque, a não confundir com o porto britânico homónimo) e tinha como destino São Francisco da Califórnia. Transportava carga diversa. Nesse tempo, a passagem para o oceano Pacífico fazia-se obrigatoriamente pela rota do cabo Horn, reputado pelas dificuldades que causava mesmo aos capitães e marinheiros mais experimentados. Foi por ali que este veleiro se perdeu, depois de se ter esventrado contra os recifes da ilha Wollaston, pertencente à República do Chile. Grande parte da carga deste novo veleiro estadunidense foi salva (graças ao bom estado do tempo) e toda a equipagem e passageiros do «P. R. Haxeltine» se salvou com recurso às baleeiras de bordo. Depois de terem rumado ao canal de Le Maire, os náufragos foram resgatados pelos navios «Sonoma» e «Gustave» (também eles veleiros) e deixados em porto seguro. O naufrágio da galera americana ocorreu no dia 25 de Agosto de 1876. Curiosidade : a tela que aqui representa o navio em apreço é da autoria do artista Percy A. Senborn.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

«SÃO GABRIEL»

Cruzador de 3ª classe da Armada Portuguesa. Foi encomendado, ainda nos tempos da monarquia e ao mesmo tempo que o seu gémeo «São Rafael», para cumprir os planos de modernização da nossa frota de guerra delineados pelo então ministro Jacinto Cândido. Foi construído em França, na cidade do Havre, pelos estaleiros da firma Forges et Chantiers du Havre (Augustin Normand), que o botaram ao mar no ano de 1900. Era um belo navio protegido por uma coberta couraçada de 35 mm, que deslocava 1 850 toneladas. Media 75 metros de comprimento por 10,80 metros de boca por 4,35 metros de calado. O sistema de propulsão deste cruzador era constituído por 2 máquinas a vapor de tripla expansão, que desenvolviam 3 000 cv e que podiam conferir ao navio 16 nós de velocidade máxima. O «São Gabriel» estava armado (artilharia principal) com 2 canhões de 150 mm, com 4 de 120 mm, com 8 de 75 mm e com 1 tubo lança-torpedos posicionado à proa. Tinha, inicialmente, mastros aparelhados com velas, como ainda era de uso na época da sua realização. Recebeu, já depois de ter sido recepcionado pela Armada, aparelhagem TSF. Teve a sua base em Lisboa. A coroa de glória do «São Gabriel» advém-lhe do facto de ter sido o primeiro navio português a ter realizado uma circum-navegação do globo (entre 11 de Dezembro de 1909 e 19 de Abril de 1911) e através de uma rota reconhecidamente difícil, que passou pelo estreito de Magalhães e pelos canais da Patagónia. A dita viagem durou 16 meses e 9 dias, tendo o navio percorrido cerca de 42 000 milhas náuticas (durante as quais afrontou um tufão nos mares da China) e visitado 72 portos nacionais e estrangeiros. Repare-se que o navio partiu de Portugal quando por cá ainda reinava D. Manuel II e que regressou à base já depois de instaurada a República. A viagem decorreu sem incidentes, já que, durante esse longo périplo, não ocorreram a bordo nem mortes, nem feridos, nem sequer houve doenças de membros da guarnição. Este cruzador, que não teve papel relevante durante o primeiro conflito generalizado, foi abatido do serviço activo em 1924, quando já era um navio obsoleto.

«GALGO»

Esta minúscula embarcação entrou na História naval durante os anos quentes da Grande Guerra, ao prestar serviço para a nossa Armada nas águas do Algarve. Era um rebocador pertencente à firma Júdice Fialho & Companhia, registado no porto da então Vila Nova de Portimão, que a autoridade marítima requisitou (em finais de Setembro de 1916) e transformou em patrulha armado. Para tanto, recebeu artilharia (1 canhão-revólver Hotchkiss de 37 mm) e a sua tripulação foi reforçada com elementos da marinha de guerra. Entre os quais figurava o 1º tenente Alberto Carlos dos Santos, que assumiu o comando. A missão do «Galgo» consistia na vigilância da costa algarvia, entre o cabo de São Vicente e Lagos. O «Galgo» fora construído nos estaleiros Ross & Duncan, de Glásgua, em data não apurada e renovado em Lisboa no ano de 1911. Deslocava 83 toneladas (em plena carga) e media 27,10 metros de comprimento fora a fora por 5,18 metros de boca. Estava equipado com 1 máquina de origem inglesa desenvolvendo uma potência de 75 cv, que lhe imprimia uma velocidade máxima de 10 milhas/hora. Foi o único 'navio' da Armada Portuguesa que, durante aquele devastador conflito e com os seus limitados meios, ousou opor-se à acção do submarino germânico «U-35» (comandado pelo famoso e temível capitão-tenente Lothar von Arnauld de la Perière), que afundou quatro navios dos Aliados só na zona de Sagres. Foi também o modesto «Galgo» e a sua corajosa tripulação de 15 homens, que lograram resgatar (com vida) ao oceano muitos dos náufragos dos cargueiros destruídos pelo supracitado submersível. Largas dezenas. O «Galgo» foi desmilitarizado pela Armada em 1918 e posteriormente devolvido ao seu legítimo proprietário. Desconhece-se quando e em que circunstâncias deixou de navegar. Curiosidade : as instâncias nacionais e internacionais protegeram os restos dos navios afundados ao largo do promontório de Sagres, transformando essa zona numa espécie de 'santuário', que a UNESCO já classificou, aliás e segundo a imprensa, como património da Humanidade.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

«HAR ZION»

Este navio (um cargueiro) foi lançado à água em 1907 pelos estaleiros Burmeister & Wain Maskin, de Copenhague; que o construíram para satisfazer uma encomenda do armador (também ele dinamarquês) Det Ostasiatiska. Armador que o utilizou até 1913, com o primitivo nome de «St. Jan». Passou depois por várias mãos, inclusivamente pelas do governo dos EUA (que se se serviu dele, entre 1918 e 1919, para repatriar alguns dos seus militares que haviam combatido em França, durante a Grande Guerra), e usou variadas bandeiras. Para além de também ter ostentado o nome de «Nikerie», este navio ainda viu pintado no seu casco o nome de «Risveglio». Após ter navegado, pois, sob bandeiras dinamarquesa, norte-americana, neerlandesa (anos 30) e italiana, este cargueiro foi vendido, em 1935, a um armador judeu, proprietário da companhia Palestine Maritime Lloyd Ltd., que o registou na Grã-Bretanha e que para o navio requereu pavilhão desse país. Vocacionado para o transporte de carga geral, o agora chamado «Har Zion» esteve algum tempo a operar entre o futuro estado de Israel e os portos do mar Negro, implicado num negócio de troca de frutos (especialmente citrinos) por madeiras, animais vivos, etc. No início da 2ª Guerra Mundial, o «Har Zion» passou a navegar no oceano Atlântico. A sua derradeira viagem desenrolava-se entre Liverpool e Savannah, quando transportava para esta cidade da Geórgia (EUA) um carregamento de álcool e de fertilizantes. Seguia integrado no comboio OB-205 (devidamente protegido por navios de guerra da 'Royal Navy'), quando foi surpreendido -ainda em águas europeias- pelo submarino inimigo «U-38»; que o torpedeou e afundou. Dos seus 37 tripulantes, só um escaparia com vida ao soçobro do navio. Este facto ocorreu em data de 31 de Agosto de 1940. O «Har Zion» apresentava as seguintes características : 2 508 toneladas de arqueação bruta; 98,90 metros de comprimento por 12,40 metros de boca por 5,84 metros de calado. A sua propulsão era assegurada por 1 máquina a vapor de tripla expansão (com veio acoplado a 1 hélice) desenvolvendo uma potência de 1 450 hp. Força que lhe transmitia uma velocidade de cruzeiro da ordem dos 11 nós. Curiosidade : aqui há uns anos, a administração postal israelita emitiu um selo homenageando este navio e a sua tripulação.